SEXTA-FEIRA - VII SEMANA -T C - ANOS ÍMPARES 1 de Março

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28Fev2019
| Escrito por Assis

 

SEXTA-FEIRA - VII SEMANA -T C - ANOS ÍMPARES  1 de Março

Primeira leitura: Ben Sirá 6, 5-17

O autor sagrado retira do rico tesouro da experiência humana algumas preciosas máximas que nos oferece. Algumas tornaram-se provérbios populares. E conclui com uma pincelada teológica confirmando que o objectivo da literatura sapiencial bíblica é levar-nos a um encontro muito próximo com Deus.

O primeiro conselho do sábio é que falemos bem aos outros, se quisermos ter amigos. Falar com ira, com sarcasmo, com críticas a tudo e a todos, não alarga o círculo dos nossos amigos. Também é preciso saber escolher os amigos. "Amigalhaços" há muitos. Mas os verdadeiros amigos, os amigos íntimos devem ser bem seleccionados.

O autor sagrado sugere, depois destas afirmações gerais, alguns critérios para seleccionarmos os amigos. Há amigos que o são enquanto recebem favores, almoços e jantares grátis.

Mas quando surge algum contratempo, imediatamente viram costas e, por vezes, acabam por se tornar inimigos. O verdadeiro amigo há-de ser provado na sua fidelidade, isto é, na sua capacidade de continuar próximo de nós quando surge a tribulação. É esse amigo fiel que constitui para nós «um tesouro» (v. 14), a cujo valor nada se iguala (cf. v. 15).

Evangelho: Marcos 10, 1-12

A comunidade messiânica deve ultrapassar a moral exclusivamente legalista, característica dos fariseus. Eles, com a pergunta sobre o divórcio, querem «experimentá-lo», pô-lo em apuros.

O divórcio hebraico era regulado por Dt 24, 1-4, cujo propósito inicial era tutelar a mulher e garantir-lhe uma certa liberdade. Mas as escolas rabínicas discutiam os motivos de divórcio. As mais liberais achavam que bastava a mulher deixar queimar a comida, ou o marido encontrar outra mais bonita, para haver divórcio. Outras achavam que só o adultério justificava o divórcio. De qualquer modo, o divórcio era concedido pela legislação em vigor com muita facilidade, o que naturalmente acabava por prejudicar a mulher.

Como é seu costume, Jesus responde à questão com outra questão, obrigando os seus interlocutores a aprofundar o sentido da sua objecção. No juízo moral, há que distinguir o que é regra humana, por muito aceitável que ela seja, e a perspectiva de Deus. As prescrições mosaicas sobre o divórcio reflectem a mediocridade humana e não o projecto primordial de Deus sobre a união do homem e da mulher.

A moral farisaica fundamentava-se na não confessada inferioridade da mulher, que era considerada propriedade do homem.

Para Jesus, à luz do Génesis, a união do homem e da mulher é a meta de uma plenitude humana. Não é o homem que toma posse da mulher, nem o contrário, mas, ao casarem, ambos se enriquecem mutuamente.

A união matrimonial procede de Deus e é um verdadeiro «sacrilégio» contrapor-lhe um projecto de separação e divergência.

O homem e a mulher levam em si a imagem de Deus-Amor e, ainda que na diferença, são chamados a ser uma só coisa no matrimónio (v. 8). A ninguém é permitido quebrar essa união (v. 9).

Para encontrar amigos, há que fazer um bom discernimento. O Sábio oferece-nos conselhos práticos para esse discernimento, lembrando que os verdadeiros amigos são poucos. Há os amigos de viagem, de restaurante, de jogo, de clube, de partido... O verdadeiro amigo manifesta-se nas situações difíceis, quando estamos fragilizados, em crise, quando nada podemos retribuir. É nesses amigos que podemos confiar e apoiar-nos. Muitas amizades são frágeis e superficiais, porque assentes em sentimentos passageiros ou em interesses que, uma vez satisfeitos, fazem esquecer quem os satisfez.

Um critério para avaliar os amigos é-nos oferecido pela fé: quem ama a Deus, procura alimentar a sua vida com valores que verifica com a vontade divina. Por isso, se pode presumir que também seja capaz de cultivar o valor da amizade.

Quantas amizades nasceram e se desenvolveram à sombra da torre da igreja ou nos grupos eclesiais. Sem cair em discursos de "gueto", verificamos que um sentimento religioso comum ajuda a fundar, construir e espalhar o valor da amizade.
Pode acontecer que andemos convencidos de que amar é sempre algo de agradável.

Por isso, quando uma amizade se torna difícil, parece-nos que já não existe amor. Jesus, implicitamente, ensina-nos que o amor traz consigo o sacrifício, a capacidade de suportar o outro. É clara a regra que oferece para o matrimónio: Deus estabeleceu que a união esponsal é indissolúvel.

Só por causa da «dureza do coração» humano é que Moisés permitiu passar o «documento de repúdio e divorciar-se» (v. 4).

Os discípulos também acharam muito duras as palavras de Jesus e, por isso, disseram-Lhe: «Se é essa a situação do homem perante a mulher, não é conveniente casar-se!» (Mt 19, 10). Mas é dele que vem a força, se formos dóceis à sua vontade, para amar de modo verdadeiro e fiel, com paciência e misericórdia. Parece-nos lógico que os outros tenham de ter paciência connosco.

Mas nem sempre estamos dispostos a suportar os defeitos dos outros. «Não vos queixeis uns dos outros», recomenda S. Tiago (Tg 5, 9). Deus não se queixa de nós. Ama-nos porque é «rico em misericórdia e compaixão» (Ef 5, 9).

Muitas comunidades cristãs, e mesmo religiosas, tornam-se ambientes onde se vive como estranhos uns ao lado dos outros, se passa uns ao lado dos outros, mergulhados nas próprias preocupações, nos próprios problemas, sem nos comunicarmos as riquezas, as alegrias, o amor que há em nós. Com este tipo de atitudes, faltam condições para que surjam amizades e possam ser cultivadas.

Fonte:

Adaptação local de um texto de F. Fonseca em “dehonianos.org/portal/liturgia”