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30Ago2012
| Escrito por D. Francisco Lerma Martinez

De 10 a 31 de Agosto de 2012 um grupo de Escuteiros de Fafe e de Viera do Minho (Portugal) visitou Gur, para prestar homenagem Irm Flora (Palmira Loureno Sampaio, FHIC (* Morerira do Rei Portugal , 1932; + Invinha - Gur, 1985), sepultada na Parquia de Invinha, onde trabalhou como enfermeira durante os ltimos anos da sua vida.

Os jovens escuteiros tambm entregaram ao povo de Invinha as ddivas de todos aqueles que contriburam com as suas generosas contribuies.

Este projecto correu em todas as freguesias dos Concelhos de fafe e Vieira do Minho (Portugal).

Os jovens vieram a Moambique em misso de voluntariado e contrubuiram para um soriso nas nossas crianas.

No encerramento desta simptica experincia, foi celebrada a Eucaristia presidida por D. Francisco Lerma, bispomde Gur, com a participao da comunidade local, dos alunos da Escola Pre-Universitria Madre Clara de Invinha e do prprio Administrador do Distrito de Gur.

Na despedida, os responsveis do grupo e em gesto de confraternizao entregaram ao Sr. Administrador do Distrito as bandeiras dos Concelhos Municipais acima referidos, e ao Sr. Bispo uma lembrana religiosa.

Um grande obrigado a estes jovens escuteiros para que continuem a sorrir e a fazer sorrir s crianas de Portugal, de Gur e de todo o Mundo, s assim sero verdadeiramente felizes tal como o foi ao longo da sua vida a Irm Flora, pioneira da missionao destas terras da Alta Zambzia.

 

"Construir a Democracia para presrvar a Paz". Texto integral

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26Ago2012
Actualizado em 26 Agosto 2012 | Escrito por D. Francisco Lerma Martinez

"Contruir a Democracia para preservar a Paz". Texto integral

CONSTRUIR A DEMOCRACIA

PARA PRESERVAR A PAZ

Nota pastoral do Conselho Permanente da CEM
s comunidades crists
e aos homens e mulheres de boa vontade
1. Aproximando-se o 20 aniversrio da assinatura do Acordo Geral de Paz em Roma, em 4 de Outubro de 1992, ns, os membros do Conselho Permanente da CEM, reunidos na nossa segunda sesso anual, em nome dos Bispos Catlicos de Moambique, queremos, com a nossa solicitude de pastores e como cidados, refletir convosco sobre o caminho feito nestes 20 anos do Acordo Geral de Paz e da incipiente convivncia democrtica, para apreciarmos os frutos positivos alcanados, discernir o que ainda precisa de ser consolidado e chamar a ateno para alguns constrangimentos e ameaas no processo da construo de um Moambique independente, soberano, pacfico e capaz de assegurar a prosperidade e o bem-estar para todos.
I. OS FRUTOS DA PAZ SO A JUSTIA E O BEM COMUM
A paz um bem comum a ser preservado por todos
2. Importa-nos, antes de mais, reiterar que o Acordo Geral de Paz constitui um marco decisivo na histria do nosso pas. , por isso, um bem comum que deve ser celebrado e preservado, e pelo qual todos devemos agradecer a Deus Criador e Providente. Est na memria de muitos moambicanos, sobretudo dos mais velhos, que durante os anos trgicos da guerra, crentes de todas as confisses religiosas presentes em Moambique envidaram esforos, rezando instantemente, na nsia de ver o conflito armado terminar.
3. Ns, os Bispos catlicos de Moambique, demos a nossa contribuio em diversos nveis e de diversas maneiras. Atravs das nossas cartas e outras comunicaes pastorais, procuramos confortar e animar o Povo moambicano a manter-se numa atitude de esperana na hora de Deus, a hora da Paz. Instantemente fizmos apelo s foras polticas e aos atores em confronto para ter a coragem de depor as armas, substituir o barulho das mesmas com a voz da razo, do dilogo sincero e construtivo, como convm aos filhos dum mesmo Povo.
Os frutos do acordo de paz
4. Volvidos 20 anos da assinatura deste Acordo importante para todos os moambicanos, podemos afirmar, sem vacilar, que so incontestveis os frutos positivos que a paz trouxe. Com assinatura do Acordo Geral de Paz conseguiu-se alcanar a to suspirada reconciliao das partes envolvidas no conflito. sabido que, durante os dezasseis anos, a guerra fratricida no poupou ningum, eliminou vidas humanas, destruiu o patrimnio nacional, dilacerou e desintegrou todo tecido social da famlia moambicana. Mas com o cessar-fogo e o advento da paz, foi possvel iniciar o processo de restaurao e regenerao da unidade nacional; as partes em hostilidade foram chamadas a entrar numa dinmica de dilogo e a cooperar para a reconstruo do pas; assim temos hoje um parlamento nacional, qual espao dum debate aberto e permanente.
5. A nvel internacional, no concerto das naes, tambm a imagem de Moambique ficou promovida com o fim do conflito: foram assinados alguns acordos com outros estados e instituies internacionais; o nosso pas deixou de ser apenas terra de notcias dramticas e passou a veicular tambm boas notcias: de paz, de reconciliao, de unidade, da vontade de construir um estado de direito, de sair da pobreza absoluta e de caminhar para a prosperidade.
6. Do ponto de vista econmico e social, com o Acordo tornou-se possvel a circulao de pessoas e de bens, a reconstruo e a expanso de algumas infraestruturas sociais e econmicas: escolas, hospitais, empresas, pontes, linhas frreas, rede eltrica e telefnica, etc. Neste contexto, so de considerar como frutos do Acordo Geral de Paz a liberdade de expresso nos meios de comunicao social, o melhoramento das relaes entre o Estado e as religies, o livre associativismo, independente do poder poltico ou dos partidos. Mesmo com a prevalncia ainda de certas limitaes e fragilidades, podemos admitir que, terminados os confrontos armados, a sociedade civil vai-se afirmando cada vez mais em Moambique.
II. A PAZ AMEAADA
Constrangimentos e ameaas paz e a convivncia democrtica
7. No obstante os inegveis aspetos positivos, no podemos, como pastores e como cidados, fechar os olhos e ficar indiferentes diante de algumas situaes e prticas que ao nosso ver pem em causa a preservao da paz e a construo de um Moambique para todos. sobre esses aspetos que nos preme chamar a ateno de todos, por forma a evitar aquilo que possa perigar a convivncia pacfica e democrtica no pas.
8. No que concerne ao aspeto da convivncia poltica, ao confrontar o que o Acordo Geral da Paz reza nos seus princpios gerais com a prxis do dia-a-dia dos partidos pode-se perceber uma certa divergncia ou seja uma tendncia da parte destes em desatender o esprito do Acordo. Com efeito, o Acordo prev que os partidos observem e apliquem na sua prxis os princpios fundamentais tais como, a prossecuo de fins democrticos e de interesses nacionais e patriticos. Ordena igualmente que, a fim de assegurar a paz e a convivncia democrtica, tenham dentro de si uma formao e estruturao democrticas e transparncia dos seus rgos (cfr. Protocolo II, Dos critrios e modalidades para a formao e reconhecimento dos Partidos Polticos).
Necessidade de partidos verdadeiros e no retoricamente democrticos
9. Observando porm, hoje a vida e o modo de atuar dos partidos, caso para perguntar: no estaro os partidos polticos, se no todos pelo menos uma boa parte deles, longe de observar estes ordenamentos? No estaremos ns diante de um paradoxo de partidos que retoricamente declaram-se defensores da democracia mas, efetivamente, na sua prxis interna e habitual so autoritrios? No , com efeito, a elite do partido, que tende a impor aos demais as prprias ideias, preferncias e interesses, constrangendo a maioria esmagadora dos seus membros a ter que se contentar em aquiescer e seguir a disciplina partidria traada pela elite? No tero muitos membros dos partidos polticos medo de expressar a prpria opinio, quando difere daquela da elite dirigente? Sero consistentes e sustentveis uma democracia e uma convivncia pacfica assentes no medo de pensar diferente e de expor publicamente o prprio pensamento? A democracia supe a liberdade dos cidados. Com efeito, cidados e partidrios que no promovem a liberdade e os direitos fundamentais das pessoas no podem assegurar o futuro da democracia nem preservar a paz. A democracia e a paz no nosso pas s estaro garantidas se houver uma efetiva transformao dos partidos polticos, para que sejam no somente retrica mas verdadeiramente democrticos, a partir do seu interior. Neste caso se aplica tambm o antigo princpio: ningum d o que no tem!
Fraco Esprito de respeito, dilogo e tolerncia pelo diferente
10. Sempre no desejo de contribuir para uma maior reflexo sobre a nossa convivncia nestes 20 anos, aps o Acordo Geral de Paz, podemos continuar a perguntar, se no estaro ameaadas a democracia e a paz, quando temos a impresso de assistirmos no nosso pas a um renhido antagonismo e a uma falta de dilogo e de tolerncia entre os dois partidos mais fortes, com tendncia de se denigrirem reciprocamente, ao ponto de no mais poderem ver e apreciar adequadamente os aspectos positivos que acontecem no seio do outro? No temos visto na aula parlamentar situaes em que se apoiam, com artificial vivacidade, discursos inconsistentes, simplesmente porque provm dum membro do mesmo partido poltico, ao mesmo tempo que se discorda e se atacam discursos que mereciam um pouco mais de considerao, s pelo simples facto de terem sido proferidos pelo membro do partido oposto? Com este modo de proceder, no se estaro a colocar os interesses dos partidos polticos acima do interesse nacional?
11. Ligado a este aspecto, quer parecer-nos que a democracia, a unidade nacional e a paz ficam igualmente ameaadas quando os partidos polticos, na azfama de atrair mais membros, tendem, contra todas as regras democrticas, a manipular retoricamente as populaes e a arrastar os seus camaradas e a sociedade civil em geral a olhar para a realidade social de uma maneira distorcida, segundo os seus interesses e a disciplina do prprio partido, em detrimento do bem comum. Temos a impresso de que os partidos polticos, de um modo geral, difundem uma viso dualista da sociedade e equacionam as coisas com esta frmula simplista: ns somos os bons e os melhores, os outros so maus e incompetentes. Esta viso no permite objectividade na anlise e na procura de solues para os problemas que apoquentam o pas. Objetivamente falando, h bons e maus frutos em todas partes, independentemente da filiao partidria, tnica, religiosa ou econmica. necessria a coragem da verdade, para valorizar o bem e denunciar o mal que existem dentro e fora do prprio partido poltico.
Nem a absolutizao dos partidos nem o culto da personalidade garantem a democracia
12. Se continuar a prevalecer a tendncia da absolutizao dos partidos polticos e o culto da personalidade dos prprios dirigentes, no ser garantida a paz em Moambique. Nenhum partido nem mesmo os seus lderes tm atributos divinos. Todos so figuras ou realidades humanas e histricas e, enquanto tal, marcados pela fundamental finitude e limitao, necessitando, por conseguinte, de uma crtica e de reformas contnuas a fim de se evitar a distoro e, assim, puderem contribuir para o bem comum. A idolatria dos partidos e o culto da personalidade so graves impedimentos para o crescimento na liberdade e a elaborao de crticas construtivas. Quando isso acontece, aqueles que procuram apresentar crticas construtivas, se estas no so bem-vindas, so vistos como persona non grata, como no sendo dos nossos, sofrendo, por isso mesmo, humilhaes e represlias. Este constrangimento gera conformismo acrtico e antidemocrtico.
Usurpao fonte de conflitos
13. A usurpao, isto , o ato de se apropriar de forma ilegtima de bens morais ou materiais pertencentes a outrem ou ao pblico constitui sempre fonte de tenses e conflitos, enquanto se funda no ato de injustia, com o recurso da fora ou da intimidao. notria a tendncia dos partidos maioritrios de reclamar o privilgio de se considerarem os nicos benfeitores do pas e, por isso mesmo, os legtimos representantes do Povo Moambicano. Por esta via, excluem e negam aos outros o direito de existir e de participar para o crescimento e desenvolvimento do pas. frequente ouvir, por um lado, a reivindicao da parte de algum partido poltico de ser o pai da democracia em Moambique. Em tais revindicaes no falta, amide, uma linguagem belicista, ameaando retomar o uso de armas ou atear o pas de fogo. E, por outro lado, escuta-se a reivindicao de antiguidade, reivindicao essa que , no poucas vezes, acompanhada de frases feitas e exacerbadas tais como: o nosso Partido que fez, faz e far. Ouvindo semelhantes reivindicaes, exclusivistas, parece que estamos diante de sujeitos revestidos de atributos infinitos e de impecabilidade, que no necessitam de alguma crtica ou correo. A no admisso de erros e da necessidade de crticas e correes, sobretudo nos partidos polticos maioritrios, conduz a um autoritarismo antidemocrtico.
14. Ameaam tambm a paz e a justa convivncia democrtica, a usurpao do patrimnio nacional. Temos assistido a casos de privatizao de bens ou de espaos, inicialmente destinados s comunidades, por meio de venda ou de contractos que s beneficiam uma elite minoritria no pas. o caso, por exemplo, da devastao rpida e excessiva das nossas florestas, por obra de madeireiros locais e estrangeiros, bem como a atribuio de espaos pblicos, como praias, ilhas e reservas florestais, a cidados nacionais ou estrangeiros, que aos poucos vo-nos transformando em espaos de uso privado e exclusivo, negando o seu usufruto maioria dos moambicanos. A autoridade estatal ou governativa, a qualquer nvel: local, municipal, distrital, provincial ou nacional, no dispe de forma absoluta dos bens de uso comum. simples administradora e no proprietria. Infelizmente h casos, e no so poucos, em que, servindo-se e abusando do cargo que se tem na sociedade, os interesses privados e individuais, do partido ou do grupo, prevalecem e so postos acima do interesse e da preocupao do bem comum. Nunca se deveria permitir a privatizao e devastao do bem pblico sem prvia consulta, auscultao e consenso das comunidades interessadas.
Ambivalncia dos megaprojetos: grande oportunidade e megaproblemas
15. Graas ao Acordo de Paz percebemos que Deus abenoou o nosso pas com uma infinidade de recursos. De facto, hoje est acontecendo uma exploso de descobertas, quase em toda a parte, de riquezas de todo o tipo, fazendo-nos sonhar com o den. Mas se vierem a faltar, a sabedoria, a prudncia e polticas justas e clarividentes, na sua explorao, podem tornar-se em pesadelo, uma sria ameaa para o pas, seno mesmo uma verdadeira fonte de diviso, conflitos e guerras. No faltam experincias e exemplos de outros contextos onde a descoberta de muita riqueza significou maldio para o prprio povo. Em vez de criar prosperidade e bem-estar para todos, por motivos de ganncia, corrupo material e moral, tais riquezas se transformam em fonte de desigualdades, de violncia, de criminalidade organizada, de destruio e de morte. Os conhecimentos cientficos no so suficientes para explor-las de forma equitativa. Urge a sabedoria humana e a vontade poltica de consider-las como um bem comum criado por Deus e destinado a todos os moambicanos.
16. No restam dvidas que os grandes projectos trazem muitas oportunidades. Mas tambm no menos verdade que trazem megaproblemas polticos, econmicos, sociais, culturais e ecolgicos. Com os megaprojetos h pessoas que abandonam, obrigadas ou por livre vontade, as prprias comunidades de origem, perdendo deste modo a ligao com a prpria terra, hbitos de trabalho, cultura e at a prpria identidade. No so poucos aqueles que, sem uma negociao clara e justa e sem a proteo da autoridade competente, so compulsivamente deslocados das suas terras de origem para zonas de reassentamento, nalguns casos, imprprias ou sem um mnimo de infraestruturas para serem habitadas. Do mesmo modo, no so tambm poucos aqueles que livremente acorrem aos lugares de explorao de recursos ou dos megaprojetos, com espectativas de verem suas vidas melhoradas. Mas porque o fazem sem nenhuma prvia preparao, estas espectativas acabam, muitas vezes, como uma bola de sabo. Perdem literalmente tudo. Outrossim, os megaprojetos agudizam o problema da crise de valores na sociedade, na medida em que o valor supremo que se busca o lucro, o desenvolvimento econmico, deixando tantos outros valores no esquecimento ou na irrelevncia.
17. Preme-nos sublinhar que Moambique para todos os moambicanos e no s para alguns. Tudo o que diz respeito a esta nossa ptria deve ser comunicado a todos os interessados. Assim como da responsabilidade dos pais educar os filhos, libert-los da ignorncia; da mesma maneira dever do Estado Moambicano lutar por eliminar entre os moambicanos no s a ignorncia de no saber ler e escrever, mas tambm o analfabetismo dos prprios direitos. No possvel ser-se cidado nacional a pleno direito ignorando as grandes decises que dizem respeito aos assuntos polticos, econmicos e culturais do prprio pas. Por isso, queremos reiterar o quanto j foi de vrias partes dito: a necessidade de renegociar de forma clara e transparente os megaprojetos em curso no pas. No se pode continuar no hermetismo em assuntos do interesse de todos os moambicanos. caso perguntar: a quem beneficia a no publicao e vulgarizao de contractos que dizem respeito a todos?
18. Moambique um pas independente e soberano. Livres e independentes devem ser os seus cidados. Mas o desemprego ameaa estes valores porque quem no o tem perde a liberdade e a possibilidade de escolher os meios adequados para construir a prpria felicidade e a da sua famlia. Mais ainda, a descoberta de grandes quantidades de recursos naturais, em vez de aumentar a nossa liberdade e prosperidade, vai reduzindo tal possibilidade. Assistimos continuamente a situaes em que filas sem nmero de camies carregados de madeira desfilam das nossas aldeias em direco aos principais portos nacionais enquanto as pessoas dessas mesmas aldeias no tm sequer carteiras para as prprias escolas nem beneficiam, em nada, da venda da prpria madeira. S conhecem os prejuzos que a delapidao dos recursos naturais causa no seu ambiente.
III. COMPROMETER-SE COM A RECONCILIAO, COM A JUSTIA E COM PAZ
Repensar nossas prioridades e valores
19. Se queremos preservar a paz necessrio e urgente um repensamento e debate inclusivo das nossas opes e prioridades no campo tico, poltico, econmico e social. A reflexo e o debate das questes cruciais do povo no podem ser deixados s aos polticos de profisso ou aos especialistas, devem envolver todas as camadas da sociedade civil.
20. Infelizmente, a vontade insacivel do ter est a tornar-se no critrio que subordina todos os outros aspetos da vida. A ganncia ou o vcio da acumulao dos bens materiais esto ocupando nos nossos dias um lugar primordial na vida das pessoas, acabando por ofuscar outros valores mais importantes, como a partilha, a solidariedade e a ateno aos mais desfavorecidos. A sede de possuir e de enriquecer-se fcil e rapidamente so como um cancro que penetra e corri as pessoas e os valores mais nobres da nossa sociedade. Quando o ter torna-se no valor supremo os outros, inclusive o prprio Deus, so relativizados.
Fazer de Moambique uma casa para todos os moambicanos e no um mercado para os mais espertos
21. Com a ganncia caem os valores da vida, da fraternidade, da solidariedade, da hospitalidade, tpicas da nossa cultura. Riquezas em grandes quantidades que at o dono se esquece delas e necessita que outros o lembrem de que lhe pertencem so destrutivas. De facto, quando isso acontece, significa que tal indivduo est retendo bens que deveriam ser destinados a quem nada tem; est empatando bens que fazem falta aos outros filhos da mesma Ptria. A ganncia separa, divide e desintegra famlias, comunidades, o pas, e constringe as pessoas a entrar inexoravelmente na lgica da instrumentalizao, da coisificao e da comercializao de tudo, at das realidades mais nobres e sagradas que tradicionalmente so intocveis, tais como: a vida humana, o sangue, rgos de seres humanos, as crianas, as mulheres, o sexo, a gua, a terra, a religio, as eleies, os votos, etc. Por causa da ganncia, hoje tudo entra no circuito comercial da compra e da venda. Por esta via Moambique est a tornar-se num grande supermercado onde tudo se vende e tudo se compra.
Superar a pobreza no s econmica mas tambm espiritual
22. A ganncia sinonimo de pobreza espiritual. Ela a raiz da injustia e de outros males e crimes. Por isso, urge falar-se no s de combater a pobreza econmica, mas tambm a pobreza do corao, a pobreza moral e espiritual.
23. a pobreza do espirito, ou seja a falta e a subverso dos valores, que leva a pensar que com a acumulao do dinheiro e de bens materiais em quantidades excessivas teremos todos os nossos problemas resolvidos e viveremos em paz. necessrio impedir a transformao de Moambique num supermercado, a comercializao do nosso pas e dos seus recursos naturais.
24. Moambique no nem pode ser transformado num supermercado. O valor que impera no mercado o dinheiro, a concorrncia, o marketing e o lucro. Moambique e deve permanecer a casa e a morada de todos os moambicanos. Os valores que regem uma casa so a comunho, o amor, a partilha, a hospitalidade, a solidariedade, a reciprocidade, o respeito e a corresponsabilidade em tudo aquilo que concorre para a construo do bem comum. De resto, estes so, como j dissemos, os valores que caracterizam a nossa tradio cultural moambicana. Parafraseando as palavras de Jesus no evangelho (cfr. Mt 16,26; Mc 8,36; Lc 9,25), podemo-nos perguntar: o que vale ganhar muito dinheiro, vendendo o nosso pas s grandes e pequenas potncias econmicas do mundo, se viermos a perder toda a nossa identidade cultural como povo moambicano?
Repensar a poltica dos Megaprojetos
25. De vrias partes foi j manifestado o desejo duma reviso da poltica dos megaprojetos. Queremos associar-nos a tais vozes, fazendo apelo para que se encete um debate geral sobre se a poltica definida est em consonncia com o projeto e com os interesses nacionais, de preservao da paz, da unidade nacional, da convivncia democrtica, do desenvolvimento sustentvel, da qua distribuio da riqueza e do bem comum. Este repensamento torna-se necessrio em razo de tudo o que estamos a perceber hoje. Quando se comeou a falar de gs natural e de outros recursos que hoje nos vamos dando conta de que existem em Moambique, ningum estava em altura de tomar decises e medidas adequadas, pois ningum podia imaginar as dimenses de tais descobertas. Hoje percebemos que, no que tange ao gs, estamos na posio de liderana entre os pases possuidores deste recurso energtico. Diante desta constatao compreensvel que as polticas definidas e as condies postas antes apaream hoje inadequadas e problemticas sob vrios pontos de vista.
Educar para os valores da solidariedade, partilha e comensalidade
26. Urge recuperar os valores da solicitude uns para com os outros, partilha e solidariedade. A solidariedade, a compaixo, o comer juntos so valores que marcaram sempre a cultura tradicional moambicana, mas hoje esto em crise. Esta crise manifesta-se pelo crescimento das desigualdades na distribuio do poder, da riqueza e do bem-estar. So tambm sintomas do declnio destes valores o rpido enriquecimento de um pequeno grupo, que ostenta opulncia, contrastando com um rpido empobrecimento de uma larga parte da famlia moambicana, mergulhada na escassez dos mais elementares recursos, tais como a comida, a habitao, os cuidados mdicos e a educao. Se, por um lado, a economia moambicana regista sinais de crescimento, no obstante a crise global, por outro, esses resultados positivos no se refletem positivamente na maioria das famlias moambicanas. Ora, um crescimento que no tenha impacto na vida de todos falacioso. Quem , afinal, o verdadeiro beneficirio desse crescimento? Como distribudo esse crescimento?
27. Precisamos de tomar a srio o problema de erradicar a fome no seio da famlia moambicana. No teremos a paz assegurada se uns tm a possibilidade de comer e de beber, at em excesso, enquanto outros passam fome. Com muita dor, testemunhamos o aumento do nmero de pessoas, homens, mulheres e crianas que andam a vasculhar as latas de lixo ou a mendigar nas avenidas e ruas das nossas cidades, procurando com que matar a fome. Este estado contraria o sonho de muitos moambicanos, que tm a peito a prosperidade do pas e o bem-estar de todos. necessrio encontrar a forma de assegurar uma qua distribuio das riquezas.
Responsabilidade para com as geraes futuras
28. A riqueza de Moambique para o bem-estar e a felicidade de todos e no s de alguns moambicanos, portanto, no s da nossa gerao mas tambm das futuras geraes. H um imperativo de preservar e de manter inclume o patrimnio nacional, evitando para isso toda a forma de degradao, gesto danosa e apropriao indbita para uso individual ou partidrio. Devemos por isso explorar os nossos recursos de uma forma que seja compativel com a continuao de uma vida digna de todos os moambicanos de hoje e do futuro. A responsabilidade um valor que concerne a todos: individuos, grupos, partidos politicos, confisses religiosas, empresas e agentes econmicos nacionais e estrangeiros. As empresas no devem preocupar-se unicamente em produzir e ganhar lucros, mas tambm devem preocupar-se com qualidade de vida e as condies socio-ambientais do nosso pas. necessario evitar saque, o esbanjamento e a degradao dos nossos recursos naturais.
29. Exortamos a todos os fiis a crescer na conscincia de que os assuntos do pas nos concernem a todos. Devemos, por isso, comprometer-nos seriamente com o bem-estar da nao, tornando-nos mais participativos na gesto dos problemas que afetam a convivncia democrtica, a paz e o bem comum.
30. A todos os que tm responsabilidades pblicas, solicitamos que se esforcem cada vez mais em proceder com justia e transparncia na gesto do bem comum, na conscincia de que ningum proprietrio ou dono dos bens que por prpria natureza pertencem a todos os cidados deste pas, embora tenham recebido, mediante o voto eleitoral, a autoridade para governarem o pas em nome de todos. Cooperem, portanto, em nome daqueles que lhes confiaram o mandato, com todas as foras vivas da sociedade civil e da poltica, para eliminar a crescente desigualdade social que existe entre os irmos da mesma famlia moambicana. Somente com o crescimento dos valores da justia, da igualdade perante a lei, da fraternidade e da solidariedade, poderemos fortalecer a paz no nosso pas.
31. s empresas e agentes econmicos nacionais e estrangeiros, que tm projetos de explorao de riquezas no nosso pas, pedimos que cultivem uma conscincia tica: sejam responsveis com o bem-estar dos seus trabalhadores e procurem preservar uma melhor qualidade de vida no pas. Deve-se evitar o enriquecimento fcil e depredador. A paz em Moambique se consolidar mais e mais com um desenvolvimento responsvel, sustentvel e ecolgico.
32. Desejamos pedir aos nossos sacerdotes, religiosas e religiosos, que acompanhem o mais de perto possvel o processo da consolidao da democracia para preservar a paz em nossas comunidades. Outrossim, pedimos que priorizem, na sua atividade pastoral, a formao dos cristos, para exercerem uma cidadania ativa, tica e responsvel. Com efeito, no podemos dissociar o anncio do Reino de Deus dos acontecimentos reais da sociedade que somos chamados a evangelizar.
33. Jesus Cristo, com a sua vida, morte e ressurreio, trouxe humanidade a Paz de Deus. Como diz S. Paulo na Carta aos Efsios, Ele a nossa Paz: fez de povos diferentes um nico povo e derrubou o muro da inimizade que os separava (cfr. Ef 2,14-16). A humanidade, em geral, e os moambicanos, em particular, so chamados a percorrer os caminhos da verdadeira Paz e a construir um mundo cada vez mais fraterno e sem divises. Para que isso acontea, todos ns somos convidados a nos reconciliarmos uns com os outros e com Deus, atravs de seu Filho Jesus, o Prncipe da Paz. Que Maria, Rainha da Paz, acompanhe o caminhar do povo moambicano na consolidao da democracia para a preservao da Paz!
Maputo, 6 de Agosto de 2012, Festa da Transfigurao do Senhor
   

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23Ago2012
Actualizado em 23 Agosto 2012 | Escrito por D. Francisco Lerma Martinez

Nota Pastoral do Conselho Permanente da CEM :" "Construir a Democracia para perseverar a Paz".

Carssimos Diocesanos

Carssimos Diocesanos

1. Em conformidade com o estabelecido pela Conferncia Episcopal de Moambique na sua ltima sesso plenria (Abril 2012), junto envio a Nota Pastoral do Conselho Permanente da CEM Construir a Democracia para preservar a Paz, alusiva celebrao dos 20 anos do Acordo Geral de Paz em Roma, no dia 4 de Outubro de 1992.

2. A supracitada Nota Pastoral dever ser oficialmente apresentada em todas as Dioceses do Pais e, sucessivamente, em todas as Parquias e comunidades da nossa Diocese, a partir do dia 26 de Agosto do presente ano.

3. Pede-se aos Reverendos Procos e Superioras/es das Comunidades Religiosas que, a nvel paroquial e das prprias comunidades, organizem novenas, trduos ou dias de orao, palestras, sesses de estudo, peregrinaes Igreja Paroquial ou outras actividades que julgarem oportunas alusivas ao tema da Paz e aos contedos da referida Nota Pastoral.

4. A partir do dia 26.08.2012, data em que ser divulgado oficialmente, recomendo a leitura do documento e a sua divulgao nas comunidades.

Ao mesmo tempo que agradecemos e louvamos o Senhor peo dom da Paz em Moambique, renovarmos o nosso compromisso cristo como construtores e instrumentos da Paz.

Sob a intercesso de Maria Rainha da Paz, oremos ao Prncipe da Paz para que se consolidem os fundamentos da Paz a Justia, a Verdade, a Liberdade, o Amor fraterno e o Perdo no corao de cada cidado, nas nossas famlias, nos nossos lugares de trabalho e de convivncia e em todo o Pais.

Deus nos abenoe,

O vosso Bispo

+ Francisco Lerma

4. A partir do dia 26.08.2012, data em que ser divulgado oficialmente, recomendo a leitura do documento e a sua divulgao nas comunidades.

Ao mesmo tempo que agradecemos e louvamos o Senhor peo dom da Paz em Moambique, renovarmos o nosso compromisso cristo como construtores e instrumentos da Paz.

Sob a intercesso de Maria Rainha da Paz, oremos ao Prncipe da Paz para que se consolidem os fundamentos da Paz a Justia, a Verdade, a Liberdade, o Amor fraterno e o Perdo no corao de cada cidado, nas nossas famlias, nos nossos lugares de trabalho e de convivncia e em todo o Pais.

Deus nos abenoe,

O vosso Bispo

+ Francisco Lerma

 

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22Ago2012
| Escrito por D. Francisco Lerma Martinez

Nos dias 21 e 22 de Agosto de 2012, na Igreja sede da parquia de N. S. Rainha do Mundo, do Alto Molcue, a Diocese de Gur realizou a sua 2 Peregrinao Mariana deste ano pastoral dedicado Eucaristia, fundamento da unidade e comunho diocesana.

Presidida por D. Francisco Lerma, Bispo da Diocese, participaram peregrinos das Parquias de Molumbo, Invinha, Nauela, Muiane (Alto Ligonha), Gil e N. S. de Ftima e N. S. Rainha do Mundo, ambas do Alto Molcue.

Os peregrinos concentraram-se por volta das 15.00H, no cruamento da Estrada Nacional N. 1 com a Estrada de Gil, a 2 kms da Vila do Millennium de Malua, sede da Parquia de N. S. Rainha do Mundo. A procisso com a imagem de N. Senhora, acompanhada com a reza do Tero completo e com diversos cnticos marianos, durou mais de duas horas.

As 18.00H. no trio do templo celebrou-se a Eucaristia, presidida por D. Francisco e concelebrada pelos procos das referidas parquias e mais outros sacerdotes que participaram na peregrinao.

Logo a seguir celebrao, deu incio a Adorao ao Santsismo Sacramento que, feita por turnos de uma hora cada, durou toda a noite at s 7.00H do dia seguinte (22.08).

O 1 turno estava formado pelo Sr. Bispo, os sacerdotes e religiosas e grupo dos vocacionados. Seguiram depois os turnos por parquias, sendo o ltimo, os das 6.00H da manh, o turno dos Jovens.

A Eucaristia da Despedida, dedicada festividade mariana do Dia 22 de Agosto, Festa de N. S. Rainha, tambm foi presidida pelo Sr. Bispo e concelebrada pelos 12 Padres participantes na peregrinao.

10.00H. os peregrinos regressaram s suas parquias de origem, ficando convidados para a 3 Peregrinao Diocesana, que se realizar nos dias 8 e 9 de Dezembro prximo, na Igreja de Invinha, dedicada Imaculada Conceio.

   

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