XXVII SEMANA – QUARTA-FEIRA – TEMPO COMUM – ANOS PARES - 10 OUTUBRO 2018

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07Out2018
| Escrito por Assis

 

XXVII SEMANA – QUARTA-FEIRA – TEMPO COMUM – ANOS PARES - 10 OUTUBRO 2018


Primeira leitura: Gálatas 2, 1-2.7-14


Paulo continua a escrever em jeito de autobiografia. Depois de catorze anos, vai a Jerusalém, acompanhado por um levita cipriota chamado José, a quem os Apóstolos tinham dado o sobrenome de Barnabé, isto é, “filho da consolação”, e que acompanhou Paulo durante o primeiro período de evangelização. Leva também Tito, um greco-cristão incircunciso, que mediou o conflito entre a Igreja de Corinto e Paulo (cf. 2 Cor 3, 13).
Tito era um exemplo vivo de liberdade perante tudo o que não correspondia ao essencial ensinamento de Cristo: ao contrário do que defendiam e praticavam alguns cristãos de Jerusalém, Tito não era circunciso. Com este exemplo concreto, Paulo expõe aos chefes da Igreja o seu evangelho, para não «correr em vão» (v. 6). Dá-se, então, em Jerusalém uma forte experiência de comunhão, expresso no aperto de mão de Paulo, a Pedro, Tiago e João, considerados «as colunas» (v. 9) da Igreja. Chega-se a um acordo: as «colunas» evangelizariam os circuncisos, Paulo e os seus companheiros evangelizariam os pagãos. A única recomendação é dar atenção aos pobres, coisa que Paulo terá em grande conta (v. 10).


Mas a comunhão não impede Paulo de se opor a Pedro que, em Antioquia, se deixou dominar pelos cristãos judaizantes, deixando de frequentar a mesa dos cristãos convertidos do paganismo, que justamente se julgavam livres de tomar qualquer tipo de alimento. E verificamos duas realidades: a primeira é que Paulo se sente livre para dizer claramente a verdade a Pedro, que “coxeia” na sua prática de crente; a segunda é que a mensagem de Cristo é uma mensagem de liberdade em relação a todo o formalismo, exterioridade, hipocrisia e constrição.


Evangelho: Lucas 11, 1-4

«Jesus estava algures a orar» (v. 1). Em qualquer tempo e lugar se pode rezar, ainda que haja tempos e lugares expressamente destinados à oração. Ao ver Jesus rezar, um dos discípulos percebeu que não sabia rezar e suplicou: «Senhor, ensina nos a orar» (v. 1). Então, Jesus ensinou-lhes a sua oração, o «Pai nosso».
A oração de Jesus começa com a invocação do Pai, Abba, no texto lucano, palavra que exprime uma ternura e um à vontade idêntico à nossa palavra “papá”. Jesus introduz-nos, deste modo, a um novo tipo de relação com Deus, caracterizado pela confiança, semelhante à de um filho que se dirige ao pai, por quem se sente amado. Chamando Pai a Deus, assemelhamo-nos a Jesus, o Filho por excelência, e partilhamos a relação íntima que existe entre Ele e o Pai. É nisto que caracteriza, em primeiro lugar, a oração do cristão.

– «santificado seja o teu nome»: pedimos a Deus que seja glorificado por todos e em todos; que seja glorificado em cada um de nós, isto é, que vendo o nosso modo de ser e de agir, todos O reconheçam e louvem; este pedido sublinha a verdade de que é procurando a glória de Deus, e não na nossa, que encontramos a nossa própria felicidade, entrando em comunhão com Ele, com os outros, com o cosmos.

– «venha o teu Reino»: toda a história é aspiração, consciente ou não, por este Reino, que é «justiça, paz e alegria no Espírito Santo» (Rm 14, 7).

– «dá nos em cada dia o pão da nossa subsistência»: o «pão» é o elemento vital que simboliza tudo o que o homem precisa para viver dignamente, crescer e realizar-se (pão, vestuário, cultura, habitação, …). Pede-se o pão «nosso» … Se for só «meu», torna-se elemento de morte. Partilhado, faz crescer. «Pão» é também a Eucaristia, a Palavra de Deus… porque «não só de pão vive o homem».

– «perdoa nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos»: o perdão de Deus liga-se à nossa atitude de perdoar, como raiz à árvore. O fundamento do nosso perdão e saber-nos perdoados por Deus… Perdoar não significa esquecer. Desejar perdoar, pedir a Deus que nos ajude a perdoar, já é atitude de perdão…

– «não nos exponhas à tentação». Esta expressão significa pedir a Deus a graça de não sucumbirmos à tentação, por causa da nossa fraqueza. Sabemos que Deus nos ouve porque «é fiel e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças» (1 Cor 10, 13).

Paulo recusa todo o formalismo, constrição, oportunismo, tradicionalismo. O essencial é aderir a Cristo e à sua verdade. Para defender essa posição, que julga correcta, está disposto a tudo, até a indispor-se com Pedro, não hesitando e aplicar-lhe a correcção fraterna. Tem de haver coerência entre o Evangelho e a vida.

É urgente que nas nossas comunidades cristãs, e religiosas, se instaure  este atrevimento, esta franqueza de relações, esta busca apaixonada da verdade de Cristo, dando ouvidos às exigências do Reino, e não dos nossos mesquinhos interesses.

Nada melhor do que ter bons espaços e tempos de oração para ultrapassar rotinas e confusões que inquinam a verdade pura do Evangelho e escravizam o nosso coração. Se rezo ao Abbá, ao Pai cheio de ternura, meu e dos meus irmãos, se Lhe peço que seja glorificado como convém, e que venha o reino da justiça, do amor e da paz, também através da minha pequena vida, então terei a força de me tornar, cada vez mais, na porção da Igreja de que faço parte, aquilo que, hoje, sou chamado a ser. Não me tornarei, certamente, um elemento polémico, soberbo e capaz de rebentar com tudo, mas uma pessoa tão intensamente unida a Jesus, tão compenetrada pelo seu humilde amor, que nada temerei, nem sequer a reacção daqueles que vier a corrigir, por amor. Pedir frequentemente, ao longo do dia, «venha o teu reino», é o segredo para alcançar a força espiritual de realmente o querer e procurá-lo, numa atitude pessoal e de relação.

O verdadeiro diálogo, na Igreja e nas nossas comunidades cristãs e religiosas, precisa de um clima de liberdade. Cada um deve experimentar que lhe é possível manifestar as suas opiniões, o seu modo de ver. Este respeito pelas opiniões dos outros, leva à compreensão recíproca, à aceitação do conselho e também à correcção fraterna. Mesmo num debate aceso, jamais se devem atacar as pessoas, mas confrontar com simpatia as ideias, as propostas, os pontos de vista.

É preciso participar no diálogo desarmados. Não devemos pensar em vencer ou perder. A vitória deve pertencer à verdade e ao bem. Ninguém de nós tem a verdade no bolso, ninguém de nós é infalível; procuramos a verdade e, mais do que procurá-la, deixamo-nos conquistar por ela.

O verdadeiro diálogo exclui a intransigência. De que me serve vencer se a minha opinião está errada? Nenhuma vantagem vem do erro. Vim para dominar ou para servir? Se estamos com Jesus devemos estar dispostos para servir: «Não vim para ser servido, mas para servir» (Mt 20, 28). Servir a verdade é servir Jesus: «Quem é da verdade, escuta a minha voz» (Jo 18, 27); «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14, 6).

O verdadeiro diálogo comunitário deveria excluir também as “acomodações” e os “compromissos”. Eles indicam que ainda não cerramos fileiras pela verdade. É preciso estar apaixonados, enamorados pela verdade, porque estamos enamorados de Cristo-Verdade (cf. Jo 14, 17), porque, como “Deus é caridade” (1 Jo 4, 16), Deus é verdade. Não importa de quem vem a verdade, não importa o meio: pode ser um jovem, um noviço. O Espírito «sopra onde quer» (Jo 3, 8) e como quer; mas, de certeza, é Ele a fonte última da verdade, como a é da caridade: «O Espírito é a verdade» (1 Jo 5, 6).

Invoquemos o Espírito e demos lugar ao Espírito nos nossos diálogos comunitários e experimentemos os seus saborosos frutos, sinais do Reino já presente no meio de nós: a caridade, a paz, a alegria, a bondade, a benevolência, a mansidão, etc. Não só pessoalmente, mas também comunitariamente.

Estamos convencidos de que a realidade escatológica dos «novos céus» e da «nova terra», onde «habita a justiça» (2 Pe 3, 13), pode ser uma realidade actual, antecipada, não só pessoalmente, mas também comunitariamente.

Fonte: resumo/adaptação local de um texto de F. Fonseca em “dehonianos.org/portal/liturgia”

 

SSEGUNDA-FEIRA – XXVII SEMANA – TEMPO COMUM – ANOS PARES - 8 OUTUBRO 20

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07Out2018
| Escrito por Assis

 

SEGUNDA-FEIRA – XXVII SEMANA – TEMPO COMUM – ANOS PARES - 8 OUTUBRO 20

 

18
Primeira leitura: Gálatas 1, 6-12
Durante a segunda viagem missionária, Paulo atravessou «a Frigia e a região da Galácia» (Act 16, 6), nas imediações da actual cidade de Ankara. Aí fundou comunidades cristãs, que depois visitou durante a terceira viagem (Act 18, 23), nos anos 53-57 DC. O Apóstolo defendia que o crente se salva pela fé em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, e não pela observância da Lei. Para ele, é nisso que consiste a liberdade cristá. Mas os judaizantes queriam adaptar a vivência do Evangelho à religião judaica e a certas práticas, tais como a circuncisão e certas observâncias. A Igreja que estava na Ásia também sofria com esses judeo-cristãos, que deformavam o evangelho pregado por Paulo e se permitiam mesmo ironizar sobre a autoridade e sobre a doutrina do Apóstolo. Paulo reagiu com força. Ao dirigir-se aos «gálatas insensatos!» e enfeitiçados (cfr. Gal 3, 1), o Apóstolo manifesta a sua indignação, não tanto para se defender, mas por verificar que estavam a afastar-se do Evangelho e a corrompê-lo. As suas palavras, cheias de fogo, querem levar os gálatas a declarar-se por Cristo e a acolherem a única certeza que conta: o Evangelho, tal como lhes foi pregado. É essa a única alegre notícia. Ao pregá-la, Paulo só deseja uma aprovação: a de Deus. De facto, o que lhes anunciou é palavra de Deus, recebida por meio de uma revelação de Jesus, e não por ensinamento humano.
Evangelho: Lucas 10, 25-37
Jesus vai a caminho de Jerusalém. Um judeu faz-lhe uma pergunta armadilhada: que devo fazer para alcançar a vida eterna? Jesus responde com outra pergunta que conduz o doutor à própria lei de Moisés. Que está escrito nela? O homem lembra o preceito do amor, tal como estava formulado em Dt 6, 3: «Amarás ao Senhor, teu Deus… e ao teu próximo como a ti mesmo» (v.27), e que os israelitas recitavam todos os dias, acrescentando o preceito do amor do próximo, tal como está expresso no Lv 19, 18.
O legalista, vendo a sua síntese aprovada por Jesus, acrescenta outra pergunta armadilhada: «quem é o meu próximo?» (v. 29). Pensando que, no Antigo Testamento, “próximo” era apenas o israelita e, mais tarde, o imigrado que se tinha inserido na comunidade israelita (cf. Lv 19, 33s.); pensando que, no tempo de Jesus, o «próximo» estava limitado ao membro da própria seita (fariseus, zelotas, etc.), compreendemos a força inovadora que se solta da parábola contada por Jesus. O Senhor não dá uma resposta teórica. Conta uma parábola que ia ao encontro da experiência dos ouvintes, que deviam estar lembrados de acontecimentos idênticos ao narrado por Jesus.
O cenário também é importante: a estrada que, de Jerusalém (situada a 740 metros acima do nível do mar), leva a Jericó (situada a 350 metros abaixo do nível do mar), desenha um percurso cheio de curvas e contracurvas, de gargantas e ravinas, onde facilmente se escondiam salteadores. A acção é animada e forte: o homem agredido, dilacerado e a sangrar é visto por um sacerdote e um levita, que passam ao largo. Finalmente aparece o protagonista da parábola: um samaritano, mestiço, bastardo e herético, que cuida do ferido. Jesus compraze-se na descrição das acções deste homem malvisto pelos judeus. Cheio de compaixão, aproxima-se do homem caído, desinfecta-lhe as feridas com vinho, minora-lhe as dores com azeite, e leva-o para a estalagem onde, à sua custa, o faz curar.
Jesus faz mais uma pergunta: «Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem» (v. 36). Está aqui o centro da narrativa. Quando Jesus diz ao doutor: «Vai e faz tu também o mesmo» (v. 37), desloca totalmente o centro da questão. Não se trata de saber quem é o nosso próximo, porque toda a criatura humana o é; trata-se, isso sim, de saber como nos tornamos próximo do outro. Quem manifesta a sua compaixão em acções concretas em favor de quem precisa, esse é verdadeiro discípulo de Deus porque «se faz próximo» do homem.
A tentação de confundir a alegre notícia do Evangelho com outras mensagens continua actual nos nossos tempos. Quantas propostas nos chegam, hoje, do Oriente e do Ocidente! Quanta confusão no que se refere a iniciativas e realidades, em si mesmas válidas, como o ecumenismo e o diálogo inter-religioso. Paulo diz-nos a nós, cristãos de hoje, que o anúncio do Evangelho não pode ser comandado por modas culturais e espiritualistas.
Para agradar a Deus, o cristão tem de ser um alegre servo do Evangelho e, por isso mesmo, livre para amar. É essa a sua verdadeira liberdade, tal como verificamos no texto do evangelho: «O bom samaritano faz-se próximo apesar da distância étnica, social e mesmo religiosa. Não pede contrapartidas» (C. M. Martini). Não se entrincheira em falsas seguranças ou medos, nem em integralismos donde possa disparar flechas de aguçados juízos sobre quem não pensa como ele.
A adesão a Jesus é plena e, por isso, não apenas mental. Adere-se a Cristo com a mente, mas também com o coração e a vida. E é na vida do dia a dia que Jesus, o Bom Samaritano, que se aproximou de cada um de nós para nos salvar, nos pede a conversão. Ao contrário do sacerdote e do levita, somos chamados a tornar-nos próximos, com o coração atento e caloroso, de quem precisa da nossa atenção e do nosso serviço. Em vez da intolerância desses legalistas, somos chamados a actuar com mansidão, escuta atenta, diálogo. Vencendo a dureza do coração, tomaremos a nosso cuidado aqueles que sofrem junto de nós. Tornar-nos-emos próximos de todos em casa, no trabalho, na comunidade, na acção pastoral. Revestir-nos-emos interiormente de paciência, benevolência, empatia e simpatia. Afogaremos no mar da misericórdia de Deus todos os ressentimentos, amarguras e recônditos interesses pessoais. Para nos tornarmos verdadeiramente próximos, vestir-nos-emos do seu amor que, se traduzirá em disponibilidade, cuidado, serviço atento, generoso e humilde.
Ainda há cristãos, e mesmo religiosos, que vivem a lei, a regra, em termos de contrato. Para eles a ordem e a regularidade são os valores primários. Não os observar é fracassar na vida cristã, na vida religiosa. O perigo de uma tal concepção é dar à observância das normas e das regra um poder vital que elas não têm. Semelhante exaltação da lei pode ser contrária à caridade e sufocar a vida; pode ser um obstáculo à comunidade-comunhão e, portanto, um obstáculo ao amor de Cristo. Podemos comportar-nos como o sacerdote ou o levita da parábola do bom Samaritano: cumpriram as suas obrigações legais e deixaram o desgraçado meio morto no caminho (cf. Lc 10, 31-32). Jesus condenou a estéril observância da lei e a inútil multiplicação de leis sem caridade. A regra ou observância que rege a vida das comunidades cristãs, e religosas, não pode ser desumanizada, despersonalizada.
Mas há também cristãos, e até religiosos, que reagem contra aquilo a que chamam formalismo, legalismo, recusando qualquer regra. A lei, dizem, destrói a espontaneidade. Querem ser completamente livres, confundindo liberdade com libertinagem, que leva ao egoísmo, à licenciosidade. A lei justa é garantia de justa liberdade, feita não só de direitos, mas também de deveres. Os meus deveres são os direitos dos outros e é justo respeitá-los. A lei dos cristãos e dos religiosos, não é tanto um código escrito, mas é Cristo vivo, Bom Samaritano da Humanidade.
Fonte: F. Fonseca em “Dehonianos.org/portal/liturgia

   

TERÇA-FEIRA – XXVII SEMANA –TEMPO COMUM – ANOS PARES - 9 OUTUBRO 2018

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07Out2018
Actualizado em 08 Outubro 2018 | Escrito por Assis

 

TERÇA-FEIRA – XXVII SEMANA –TEMPO COMUM – ANOS PARES - 9 OUTUBRO 2018

Primeira leitura: Gálatas 1, 13-24

Depois de afirmar que o seu Evangelho é o de Jesus Cristo, Paulo apresenta as suas credenciais de apóstolo. É um texto importante, de carácter autobiográfico. O Apóstolo recorda aos Gálatas a sua mudança radical: de tenaz defensor da Lei, e feroz perseguidor da igreja de Cristo, tornara-se seu audaz apóstolo e defensor.
O evangelho que Paulo prega não se fundamenta no seu passado judeu, não brotou das práticas de fariseu zeloso. A revelação recebida no caminho de Damasco revolucionou completamente o seu modo de pensar e de agir.
Paulo está consciente de que Deus o escolheu e chamou desde o seio de sua mãe em vista de um evento absolutamente gratuito: a revelação de Jesus a anunciar a todos, também aos pagãos (cfr. vv. 15 e 16). A tradução «… revelar o seu Filho em mim» é muito expressiva. A sua vocação é semelhante à dos profetas, à de Jeremias, por exemplo. Por isso, não opõe resistência e, sem recorrer a «conselhos humanos» (v. 16), parte para a Arábia, deixando-se envolver na aventura de anunciar a Jesus Cristo.
A absoluta independência do evangelho de Paulo verifica-se também pelo facto de que, só num segundo momento, sente necessidade de «conhecer a Cefas», indo a Jerusalém, onde permaneceu «quinze dias» (v. 18). As palavras de Paulo têm o sabor da verdade profunda acolhida e a luz de um evento vivido em plenitude.

Evangelho: Lucas 10, 38-42

Este texto foi usado ao longo dos séculos para “justificar” a vida activa, figurada em Marta, e a vida contemplativa, figurada em Maria. Mas, mais importante que os dois estados de vida, são as duas atitudes interiores.
Jesus vai a caminho de Jerusalém, rumo à consumação do mistério pascal da nossa salvação: «continuando o seu cami¬nho, Jesus entrou» (v. 38). Em Betânia, entra em casa de Lázaro, onde Marta, irmã de Maria e de Lázaro, faz as honras da casa. Mas parece que estavam só as duas irmãs. Por isso, a entrada de Jesus na casa é um gesto audacioso. Na verdade, para Ele, «já não conta ser judeu ou grego, homem ou mulher»; o que conta é ser «nova criatura» que, na relação com Ele, se afirma (cfr. Gal 6, 15).
Marta acolhe Jesus; Maria senta-se a seus pés e escuta a palavra. Aqui, a atenção não está centrada em Jesus que fala, mas na “mulher-verdadeira-discípula” acocorada a seus pés e esquecida de tudo quanto não seja Ele e a sua palavra. Marta, pelo contrário, «andava atare¬fada» (v. 40), em grande tensão, quase diríamos, alienação, com o que havia para fazer. Então, com alguma petulância, como se pode entrever numa tradução literal do v. 40: «adiantando-se» ou, mais rigorosamente, «pondo-se por cima», Marta perturba a quieta contemplação das palavras de Jesus e da escuta de Maria. Marta quase acusa Jesus de não ligar atenção e interesse aos seus serviços.
É então que Jesus aproveita a ocasião para repreender, não o útil serviço que Marta está a prestar, mas a excessiva inquietação e preocupação que lhe marcam negativamente o agir. Já noutra ocasião Jesus dissera: não vos preocupeis com o que haveis de vestir, ou comer, ou com qualquer outra coisa (cfr. Mt 6, 25-34). Mas a escolha de Maria foi acertada, porque deu atenção à única coisa que interessa, isto é, à escuta da Palavra. É a melhor parte que não será tirada a quem ama.
Para justificar a sua missão de Apóstolo, diante dos Gálatas, Paulo usa um argumento que me toca profundamente. Também eu, «desde o seio minha mãe» fui escolhido e chamado a viver a realidade baptismal da minha adopção filial, com tudo o que essa escolha e essa vocação comportam de dom inestimável da parte de Deus e de compromisso perseverante da minha parte.
Num mundo marcado por grande confusão e pela desesperada perda de sentido, num mundo onde os mass media, em si mesmos tão positivos, mas manipulados pelas cegas forças do eficientismo materialista, “macaqueiam” os «caminhos da paz», falsificando a vida e a morte, é urgente acolher a palavra de Jesus. Acolho-a, em primeiro lugar, em mim mesmo; é em mim que, de acordo com a prioridade contemplativa sugerida pela atitude de Maria, a escuta, em tempos e espaços de indispensável quietude de todo o meu ser.
Mas também é urgente anunciá-la. Hoje mais do que nunca! Todavia há que resistir à tentação da excessiva inquietação e preocupação, que Jesus estigmatiza em Marta. Inquietar-se e preocupar-se, seria como quem pretendesse pescar agitando permanentemente as redes, em vez de as lançar com mão segura ao mar. Chegou o tempo de viver, no dia a dia, a atitude orante de Maria, sem descuidar o genuíno serviço de Marta, mas animando-o e vivificando-o com este sereno acolhimento da Palavra. Sem uma tenaz e humilde fidelidade à Palavra rezada de manhã e vivida no ministério do serviço ao longo do dia, não há autenticidade de vida cristã e, muito menos, de vida religiosa. Não há autenticidade no anúncio do Evangelho. É importante que esta convicção invada todo o meu ser.

Fonte:
 resumo e adaptação local de um texto de F. Fonseca em “dehobianos.org/portal/liturgia”.

 

TERÇA-FEIRA – XXVI SEMANA –TEMPO COMUM – ANOS PARES - 2 OUTUBRO 2018

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30Set2018
| Escrito por Assis

 

TERÇA-FEIRA – XXVI SEMANA –TEMPO COMUM – ANOS PARES - 2 OUTUBRO 2018
Primeira leitura: Job 3, 1-3.11-17.20-23
Depois de atingido por todas as provações, Job permanece sete dias e sete noites em grande prostração, acompanhado pelos três amigos, todos em silêncio. Por fim: «Job abriu a boca e amaldiçoou o dia do seu nascimento» (v. 1). Amaldiçoou o dia em que nasceu e lamentou que não lhe tivesse sido tirada a vida nesse momento. O sofrimento prolongado pode levar ao desespero. Job resistiu com docilidade à violência da provação durante sete dias e sete noites. Não amaldiçoou a Deus nem pediu a morte. Mas, agora, explode em imprecações e lamentos que não é fácil encontrar na Sagrada Escritura. Encontramos algo de semelhante em Jeremias (20, 14).

Há neste texto um novo modo de enfrentar o sofrimento. Ele já não é visto simplesmente como uma prova para a gratuidade da nossa fé, mas como uma experiência que nos leva a penetrar no mais profundo do abandono, da angústia e da noite escura do Filho de Deus Crucificado. Encontrar estas expressões na Sagrada Escritura, portanto como palavra revelada, dá-nos consolação. Deus aceita quem, na obscuridade e na desolação da prova, fala sem saber o que diz. Os lamentos têm sentido, não são inúteis. Chegam mesmo a ser oração, «oração de lamentação». Job, em plena lamentação, não se afasta de Deus, não se esconde do seu rosto, não procura outro Deus que não o oprima, que não o esmague. Pelo contrário, entrega-se plenamente ao Deus que o desiludiu. A lamentação agita o coração e liberta-o.
Evangelho: Lc 9, 51-56
Depois do ministério na Galileia, com todas as suas palavras, a sua mensagem, os seus milagres e o testemunho do seu amor, Jesus caminha decididamente para Jerusalém, para a realização do seu destino. O caminho de Jerusalém levará Jesus até à cruz e à ressurreição. É a sua «hora» (cf. Jo 12, 23;16, 32). A hora manifesta a vontade de Jesus e dar a vida. Essa vontade acompanhou-o toda a vida. Nele tudo tendia para o momento do dom. Nessa hora, Jesus acolhe todo o sofrimento dos homens e dá a vida para os salvar.
A primeira parte do evangelho de Lucas (ministério na Galileia) visa a “compreensão” do Reino; a segunda visa a “realização” do Reino. Na primeira parte, o Reino é apresentado em parábolas, como um mistério que cresce no escondimento, um crescimento atribulado e fatigante; agora revela-se mais claramente como o mistério da morte e da ressurreição de Cristo. Ao falar deste itinerário, Lucas escreve que Jesus «se dirigiu resolutamente» (v. 51) para Jerusalém. Literalmente, «endureceu o rosto». É uma expressão do cântico do Servo: «Tornei o meu rosto duro como pedra» (Is 50, 7). Jesus vê claramente os sofrimentos que vai enfrentar. Mas abandona-se completamente à vontade do Pai.
As palavras de Job expressam sentimentos comuns a quem sofre intensamente. Provavelmente também já experimentámos sentimentos idênticos. O grito dramático de Job é certamente semelhante aos gritos que nós próprios já libertamos em situações de grande sofrimento. Pode-se chegar mesmo ao sinistro desejo da morte. Mas é passando por semelhante provação que podemos encontrar Deus, ou perdê-lo! É Job quem o diz: «Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora vêem-te os meus próprios olhos». (42, 5). Agora que Job está “nu” diante de Deus, pode conhecê-lo e amá-lo. É certo que se lamenta e grita. Mas fá-lo diante de Deus. É significativo que a Bíblia não tenha expurgado estas expressões, mas as tenha assumido e tornado oração de lamentação, de súplica e de súplica angustiada a Deus.
O capítulo terceiro de Job ensina-nos a distinguir a lamentação da lamúria. Somos levados a lamuriar-nos muitas vezes e de tudo. Não somos capazes de nos lamentar com Deus, de chorar diante d´Ele. Nem sempre somos capazes de nos dirigir a Deus.
Mas o terceiro capítulo de Job também nos ensina a olhar de frente as provações, para lhe quebrarmos o aguilhão. Quando chegamos à conclusão de que não podemos mais, então chegou o momento de exprimirmos a nossa gratuidade de amor. Jesus mostrou-nos a gratuidade do seu amor na cruz, no auge do sofrimento e do seu grito que, por um lado, exprime a suprema desolação mas, por outro, a total confiança no Pai (cf. Mc 15, 34).
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Senhor, diante do teu amor crucificado, contemplo o infinito amor com que me falaste ao coração. Também queria amar-te, como tu me amaste. A minha alma tem sede de Ti. Mas não consigo chegar a Ti. Dá-me a graça de Te compreender e de compreender o teu amor, mesmo na tribulação, como o compreendeu o teu servo Job, verdadeiro crente, ainda que pagão. Ajuda-me a compreender as provações de Job, a entrar no seu sofrimento, para poder penetrar nas provações e no sofrimento de Jesus. Tu, Senhor, quiseste assumir os nossos sofrimentos para os purificar. Por isso me podes ajudar a contemplar a cruz, e a ler no Coração trespassado de Cristo todas as riquezas do mistério que Tu és.
Fonte: F. Fonseca em “Dehonianos.org/portal/liturgia/”javascript:void(0);

   

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