SÁBADO - VII SEMANA – T C - ANOS ÍMPARES - 2 MARÇO 2019

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28Fev2019
| Escrito por Assis

 

SÁBADO - VII SEMANA – T C - ANOS ÍMPARES - 2 MARÇO 2019

Primeira leitura: Ben Sirá 17, 1-13 (gr 1-15)

O autor sagrado, inspirando-se na tradição bíblica, que remonta aos dois primeiros capítulos do Génesis, apresenta o homem como vértice da Criação.

Mas há uma infinita diferença entre Deus e o homem. E não pode haver qualquer tipo de confusão que leve o homem a cair na tentação da autonomia ou da auto-suficiência perante Deus. Deus é o Criador; o homem é criatura.

A maior parte dos verbos tem Deus por sujeito e elenca dons e prerrogativas que tornam grandes e nobres os homens. É Deus que confia aos homens o «domínio» da Criação.

O vértice dos dons conferidos aos homens é atingido na expressão: «fê-los à sua própria imagem» (v. 3). É a afirmação mais singular e mais original da antropologia bíblica.

Os homens levam impresso em si mesmos algo de divino e são "familiares" de Deus. O v. 7 sugere a ideia de que Deus como que nos emprestou os seus olhos para contemplarmos a Criação com o Seu próprio encanto. Outro excelente dom é o da consciência (cf. v 6b).

Todos estes benefícios de Deus exigem uma resposta. Os homens hão-de reagir a esses dons com o louvor (cf. v. 8). A Criação revela a grandeza e a magnificência de Deus, que o homem, dotado de inteligência, admira e celebra com amor.

Evangelho: Marcos 10, 13-16

A renúncia ao orgulho é outra característica da comunidade messiânica. O episódio da apresentação de alguns meninos a Jesus é significativo e claro a este respeito. Os discípulos pretendiam afastar as crianças, não porque incomodavam Jesus, mas porque, como as mulheres, representavam pouco ou mesmo nada. Segundo a mentalidade comum, de que os discípulos naturalmente também partilhavam, o Reino não era para crianças, mas para adultos, capazes de opções conscientes, de obras correspondentes e de adquirir méritos.

Para Jesus, era tudo ao contrário: o Reino é um dom de Deus, que é preciso receber com disponibilidade. As crianças são as pessoas mais disponíveis para acolher dons, porque são pequenos e pobres, sem seguranças a defender ou privilégios a reclamar.

Assim devem ser os discípulos de Cristo (v. 15), porque o Reino não é uma conquista pessoal, mas dom gratuito de Deus a esperar e a acolher com simplicidade e confiança. Ao abraçar as crianças, Jesus elimina toda a distância entre Ele e as crianças, e torna-se modelo daquela vida a que se chama «infância espiritual». De facto, dirige-se ao Pai com a palavra «abba», submete-se à sua vontade, abandona-se nas suas mãos.

A primeira leitura e o evangelho celebram o valor do homem. Vêm, pois, ao encontro da mentalidade que se impôs na sociedade moderna, que proclama os direitos humanos, realça a dignidade do homem e defende a sua liberdade.

Infelizmente, na prática, nem sempre assim acontece, pois são ainda demais os atropelos a esses direitos. Na sociedade em que vivemos há pessoas oprimidas e exploradas, que vivem em condições incompatíveis com a dignidade humana: situações de pessoas singulares, de famílias, de grupos.

Devemos lutar, conforme as nossas possibilidades, a fim de que a justiça se realize, afim de que o pecado social seja eliminado.

Mas o autor sagrado está interessado em apresentar o homem, não tanto em geral, mas na sua relação com Deus. Na lectio, notámos que o sujeito de quase todos os verbos é Deus. Como vemos também no Sl 8, é Deus que confere nobreza ao homem e o coloca no vértice da criação. A nobreza do homem é, pois, um dom recebido e não um fruto de sua conquistada.

Tudo o que o homem é, tudo o que o homem tem, é dom do amor generoso e gratuito de Deus: a inteligência, língua e olhos, os ouvidos e o coração para pensar, a ciência...

O Senhor, acima de tudo, «concluiu com eles uma Aliança eterna e revelou-lhes os seus decretos» (v. 12). O Sábio fala evidentemente da aliança com Moisés e da Lei das duas tábuas.

Maior razão temos nós para nos espantarmos diante da bondade divina, ao pensarmos na Nova Aliança selada com o sangue de Cristo e na Nova Lei escrita nos nossos corações, que nos faz viver no Espírito Santo como filhos de Deus.

No evangelho, Jesus repete a este homem tão grande, por causa dos dons de Deus, que saiba acolher o Reino de Deus com a simplicidade de uma criança.

Para sermos "crianças", em sentido evangélico, temos um caminho: ser filhos de Maria. Ela soube ser pequena e estar contente com essa situação:

«O meu espírito exulta em Deus, porque olhou para a humildade da sua serva» (cf. Lc 1, 46-48).

É difícil sermos felizes com as nossas limitações. O segredo consiste em ser humildes e magnânimos. Por isso, é que Maria pôde falar de si em termos de grandeza e de humildade.

Maria foi adulta na fé. Como diz o Sábio, soube usar o discernimento para raciocinar. Fez perguntas essenciais ao Anjo da Anunciação para obter respostas precisas. Mas também foi pequena, dócil e confiante para se abandonar a Deus e ao seu projecto, mesmo sem perceber tudo.

Agradeçamos ao Senhor por nos ter dado Maria por Mãe e modelo, que nos ajuda a compreender a necessidade da pequenez e a crescer nela para recebermos as graças divinas.

Fonte:

Adaptação local de um texto de F. Fonseca em “dehonianos.org/portal/liturgia”

 

SEXTA-FEIRA - VII SEMANA -T C - ANOS ÍMPARES 1 de Março

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28Fev2019
| Escrito por Assis

 

SEXTA-FEIRA - VII SEMANA -T C - ANOS ÍMPARES  1 de Março

Primeira leitura: Ben Sirá 6, 5-17

O autor sagrado retira do rico tesouro da experiência humana algumas preciosas máximas que nos oferece. Algumas tornaram-se provérbios populares. E conclui com uma pincelada teológica confirmando que o objectivo da literatura sapiencial bíblica é levar-nos a um encontro muito próximo com Deus.

O primeiro conselho do sábio é que falemos bem aos outros, se quisermos ter amigos. Falar com ira, com sarcasmo, com críticas a tudo e a todos, não alarga o círculo dos nossos amigos. Também é preciso saber escolher os amigos. "Amigalhaços" há muitos. Mas os verdadeiros amigos, os amigos íntimos devem ser bem seleccionados.

O autor sagrado sugere, depois destas afirmações gerais, alguns critérios para seleccionarmos os amigos. Há amigos que o são enquanto recebem favores, almoços e jantares grátis.

Mas quando surge algum contratempo, imediatamente viram costas e, por vezes, acabam por se tornar inimigos. O verdadeiro amigo há-de ser provado na sua fidelidade, isto é, na sua capacidade de continuar próximo de nós quando surge a tribulação. É esse amigo fiel que constitui para nós «um tesouro» (v. 14), a cujo valor nada se iguala (cf. v. 15).

Evangelho: Marcos 10, 1-12

A comunidade messiânica deve ultrapassar a moral exclusivamente legalista, característica dos fariseus. Eles, com a pergunta sobre o divórcio, querem «experimentá-lo», pô-lo em apuros.

O divórcio hebraico era regulado por Dt 24, 1-4, cujo propósito inicial era tutelar a mulher e garantir-lhe uma certa liberdade. Mas as escolas rabínicas discutiam os motivos de divórcio. As mais liberais achavam que bastava a mulher deixar queimar a comida, ou o marido encontrar outra mais bonita, para haver divórcio. Outras achavam que só o adultério justificava o divórcio. De qualquer modo, o divórcio era concedido pela legislação em vigor com muita facilidade, o que naturalmente acabava por prejudicar a mulher.

Como é seu costume, Jesus responde à questão com outra questão, obrigando os seus interlocutores a aprofundar o sentido da sua objecção. No juízo moral, há que distinguir o que é regra humana, por muito aceitável que ela seja, e a perspectiva de Deus. As prescrições mosaicas sobre o divórcio reflectem a mediocridade humana e não o projecto primordial de Deus sobre a união do homem e da mulher.

A moral farisaica fundamentava-se na não confessada inferioridade da mulher, que era considerada propriedade do homem.

Para Jesus, à luz do Génesis, a união do homem e da mulher é a meta de uma plenitude humana. Não é o homem que toma posse da mulher, nem o contrário, mas, ao casarem, ambos se enriquecem mutuamente.

A união matrimonial procede de Deus e é um verdadeiro «sacrilégio» contrapor-lhe um projecto de separação e divergência.

O homem e a mulher levam em si a imagem de Deus-Amor e, ainda que na diferença, são chamados a ser uma só coisa no matrimónio (v. 8). A ninguém é permitido quebrar essa união (v. 9).

Para encontrar amigos, há que fazer um bom discernimento. O Sábio oferece-nos conselhos práticos para esse discernimento, lembrando que os verdadeiros amigos são poucos. Há os amigos de viagem, de restaurante, de jogo, de clube, de partido... O verdadeiro amigo manifesta-se nas situações difíceis, quando estamos fragilizados, em crise, quando nada podemos retribuir. É nesses amigos que podemos confiar e apoiar-nos. Muitas amizades são frágeis e superficiais, porque assentes em sentimentos passageiros ou em interesses que, uma vez satisfeitos, fazem esquecer quem os satisfez.

Um critério para avaliar os amigos é-nos oferecido pela fé: quem ama a Deus, procura alimentar a sua vida com valores que verifica com a vontade divina. Por isso, se pode presumir que também seja capaz de cultivar o valor da amizade.

Quantas amizades nasceram e se desenvolveram à sombra da torre da igreja ou nos grupos eclesiais. Sem cair em discursos de "gueto", verificamos que um sentimento religioso comum ajuda a fundar, construir e espalhar o valor da amizade.
Pode acontecer que andemos convencidos de que amar é sempre algo de agradável.

Por isso, quando uma amizade se torna difícil, parece-nos que já não existe amor. Jesus, implicitamente, ensina-nos que o amor traz consigo o sacrifício, a capacidade de suportar o outro. É clara a regra que oferece para o matrimónio: Deus estabeleceu que a união esponsal é indissolúvel.

Só por causa da «dureza do coração» humano é que Moisés permitiu passar o «documento de repúdio e divorciar-se» (v. 4).

Os discípulos também acharam muito duras as palavras de Jesus e, por isso, disseram-Lhe: «Se é essa a situação do homem perante a mulher, não é conveniente casar-se!» (Mt 19, 10). Mas é dele que vem a força, se formos dóceis à sua vontade, para amar de modo verdadeiro e fiel, com paciência e misericórdia. Parece-nos lógico que os outros tenham de ter paciência connosco.

Mas nem sempre estamos dispostos a suportar os defeitos dos outros. «Não vos queixeis uns dos outros», recomenda S. Tiago (Tg 5, 9). Deus não se queixa de nós. Ama-nos porque é «rico em misericórdia e compaixão» (Ef 5, 9).

Muitas comunidades cristãs, e mesmo religiosas, tornam-se ambientes onde se vive como estranhos uns ao lado dos outros, se passa uns ao lado dos outros, mergulhados nas próprias preocupações, nos próprios problemas, sem nos comunicarmos as riquezas, as alegrias, o amor que há em nós. Com este tipo de atitudes, faltam condições para que surjam amizades e possam ser cultivadas.

Fonte:

Adaptação local de um texto de F. Fonseca em “dehonianos.org/portal/liturgia”

   

3ª FEIRA - VII SEMANA - T C - ANOS ÍMPARES - 26 FEVEREIRO 2019

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26Fev2019
| Escrito por Assis

 

 

3ª FEIRA - VII SEMANA - T C - ANOS ÍMPARES - 26 FEVEREIRO 2019

Primeira leitura: Ben Sirá 2, 1-13 (gr. 1-11)

A tentação é um teste, uma prova à verdade ou à falta dela, quando nos propomos servir a Deus. Por isso, o capítulo 2 do Ben Sirá começa com as palavras: «Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, prepara a tua alma para a provação» (v. 1).

Logo a seguir, indica algumas regras práticas de comportamento para superar a provação: «Endireita o teu coração e sê constante, não te perturbes no tempo do infortúnio. Conserva-te unido a Ele e não te separes, para teres bom êxito no teu momento derradeiro. Aceita tudo o que te acontecer, e tem paciência nas vicissitudes da tua humilhação» (vv. 2-4).

A provação é dura. Mas se usarmos os meios indicados, podemos superá-la e verificar a autenticidade do nosso compromisso.

Depois destas recomendações, o sábio exorta ao temor de Deus. Não se trata de ter «medo» de Deus, mas de abandonar-se a Ele confiadamente, na certeza de que nos protege: «Confia em Deus e Ele te salvará, endireita os teus caminhos e espera nele» (v. 6).

O santo temor de Deus, assim entendido, é um excelente meio para superar a provação, a tentação. Ao terminar, o sábio lembra-nos que, para vencermos a provação, precisamos de um pouquinho da nossa boa vontade e de uma desmedida quantidade de amor divino:

«Porque o Senhor é compassivo e misericordioso, perdoa os pecados e salva no tempo da aflição. Ele é o protector dos que o procuram de coração sincero» (v. 11).

Evangelho: Marcos 9, 30-37

O segundo anúncio da paixão é mais seco do que o primeiro (8, 31). Não se diz quem serão os autores da morte de Jesus. Os discípulos nem se atrevem a fazer perguntas. Talvez porque conhecem as reacções de Jesus, e a sua própria cegueira.

Além disso, andavam ocupados com outros pensamentos. Sabiam que Jesus queria fundar uma comunidade e que os elementos fundadores eram eles. Preocupava-os a organização da comunidade. Até aí, não havia falta.

Mas também discutiam sobre quem deles seria o primeiro nessa comunidade. Jesus admite que tem que haver um «primeiro», mas não à maneira da sociedade civil. Por isso, faz-lhes saber que será primeiro aquele que se dispuser a servir com humildade. «Servir», em sentido bíblico, é servir a Deus e, portanto, também ao próximo. Este «serviço» liberta do egoísmo, vício dominante do homem. Quem quiser ser o primeiro «há-de ser o último de todos e o servo de todos» (v. 35).

Há aqui uma lição de humildade e de entrega de si na dor e no sofrimento, mas, sobretudo, no amor oblativo e desinteressado. Aquele que sabe ser o último e o servo, reconhece que tudo quanto possui lhe foi dado por Deus.

Por isso, coloca-se em atitude de acolhimento: «quem me receber, não me recebe a mim mas àquele que me enviou» (v. 37). É comparável a uma criança que recebe tudo e a todos com simplicidade, humildade e pobreza, e se abandona confiadamente nos braços dos pais, ou de quem dela cuida.

Quando alguém se propõe servir a Deus, geralmente espera encontrar serenidade e receber logo, não talvez cem por um de quanto deu ao Senhor, mas, pelo menos, tranquilidade e paz. Mas Deus nem sempre permite que isso aconteça. Na primeira leitura de hoje avisa-nos mesmo: «Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, prepara a tua alma para a provação» (v. 1). Sendo assim, a provação não é um mal, mas um bem, um sinal do amor de Deus, a condição para crescermos no seu amor, para recebermos grandes graças. Por isso, continua: «tem paciência nas vicissitudes da tua humilhação, porque no fogo se prova o ouro e os eleitos de Deus, no cadinho da humilhação.» (vv. 4-5).

Deus sabe que levamos em nós algo de muito precioso. Submete-nos à provação para que esse tesouro se torne mais belo e agradável aos seus olhos. Da nossa parte, nada mais convém fazer senão abandonar-nos e apoiar-nos no Senhor: «Confia em Deus e Ele te salvará» (v. 6).

A vida dos que pretendem servir o Senhor há-de ser recta e unificada pelo amor de Deus. Deve decorrer, não no medo, mas no temor de Deus, isto é, num profundo respeito, permeado de amor por Ele: «Ai do coração pusilânime, e das mãos desfalecidas, e do pecador que segue dois caminhos!» (2, 12).

O temor do Senhor é garantia dos favores divinos: «Vós, que temeis o Senhor, contai com a prosperidade, a alegria eterna e a misericórdia» (2, 9).

Jesus, o Servo de Deus por excelência, também passou pela provação. Quando se preparava para subir a Jerusalém, preparou os discípulos para não serem simples espectadores…

Consciente das dificuldades, foi-os educando progressivamente a diversos valores: à escolha do último lugar, à renúncia a miragens demagógicas, ao acolhimento dos que não contam, como as crianças. Procura prepará-los para a cruz, que não hão-de apenas pelo seu lado negativo, mas como caminho de ressurreição.

O mistério pascal nasce da combinação de paixão/morte e ressurreição. Os discípulos estavam sujeitos à tentação de pararem antes da chegada a Jerusalém, de arredarem caminho, de recorrem a atalhos ou caminhos mais largos. Era a provação dos discípulos há dois mil anos, e continua a sê-la também hoje. Se escutarmos o aviso do Ben Sirá - «Confia em Deus e Ele te salvará» - venceremos a provação e poderemos subir a Jerusalém para celebrar a sua e a nossa páscoa.

Fonte: adaptação local de um texto de F. Fonseca em “dehonianos.org/portal/liturgia” 

 

4ª -FEIRA - VII SEMANA - T C - ANOS ÍMPARES -

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26Fev2019
| Escrito por Assis

 

 

4ª -FEIRA - VII SEMANA - T C - ANOS ÍMPARES -

27 FEVEREIRO 2019

Primeira leitura: Ben Sirá 4, 12-22 (gr 11-19)

«A sabedoria toma sob a sua protecção aqueles que a buscam». O nosso texto fala-nos da sabedoria como de alguém que pode cuidar da nossa formação para uma vida feliz e recta. Mas é preciso procurá-la com afinco, abrir a mente e o coração aos seus preciosos ensinamentos. Se assim fizermos, ela guiar-nos-á para a vida, para a alegria e para a glória. Ensinar-nos-á a julgar com equidade e a viver tranquilos.
Mas a sua influência é particularmente preciosa na vivência da nossa relação com Deus:

«Os que a servem prestam culto ao Santo, e os que a amam são amados pelo Senhor» (v. 14).

Há uma forte aproximação entre a verdadeira sabedoria e a relação com Deus. Ao fim e ao cabo, a sabedoria é uma qualidade de Deus, uma das suas expressões. E só se alcança com esforço pessoal: «Antes de confiar nele, pô-lo-á à prova com os seus preceitos» (v. 17c.). A perseverança nas provações revelam a capacidade de se confiar à sabedoria, de se abandonar a ela, deixando-se conduzir por ela, deixando-se progressivamente "construir" por ela. Só assim será possível entrar na sua intimidade, conhecer-lhe os segredos.

O versículo 19 é um aviso: «Se ele se transviar, ela há-de abandoná-lo, e entregá-lo-á nas mãos da desgraça.» É preciso aceitar a pedagogia da sabedoria, mesmo que seja exigente e nos faça sofrer. Se assim não for, corremos o risco de fracassar e ser abandonados ao nosso destino.

Evangelho: Marcos 9, 38-40

Ao terminarmos a leitura do capítulo 9 de Marcos, podemos fazer um pequeno resumo de alguns temas: a fé dos discípulos é frágil, não é suficiente para expulsar demónios; os próprios discípulos têm a mania das grandezas, orgulhando-se diante daqueles que não pertencem ao grupo dos discípulos. Parece-lhes que só eles têm capacidade para realizar acções correspondentes aos ensinamentos de Jesus.

Mas o Mestre mostra que a sua missão e os seus ensinamentos não podem ser encerrados atrás de portas ou muros. O Espírito Santo sopra onde quer. Fazer prodígios «em nome» de Jesus, é actuar com liberdade, acolhendo o amor, e em total dependência de Deus, que não exclui ninguém. Os discípulos não podem pretender um monopólio absoluto sobre Jesus.

A Igreja deve estar aberta àqueles que não lhe pertencem expressamente, mas demonstram simpatia e benevolência em relação a ela. As exortações finais apresentam exactamente alguns princípios para a boa convivência comunitária.

As leituras de hoje apresentam-nos dois mestres excepcionais: a Sabedoria e Jesus. Estes dois mestres acabam por se identificar, porque a Sabedoria, em última análise, é o Verbo que, na plenitude dos tempos, assume carne humana da Virgem Maria. É Jesus.

Na primeira leitura a Sabedoria promete conduzir às fontes da alegria e do sucesso aqueles que a procuram, avisando que não se trata de uma tarefa fácil. É uma observação interessante para nós que queremos tudo "já" e "sem esforço".

Mas a própria vida nos ensina que, sem esforço, nada se alcança. Pensemos na vida dos atletas de alta competição! Mas a Sabedoria assegura a realização de quem a procura: «Os que amam a Sabedoria são amados pelo Senhor» (v. 14). Estar em sintonia com o Senhor é a máxima realização da existência.

No breve texto evangélico que hoje escutamos, os Apóstolos parecem sentir-se donos de Jesus e dos seus poderes. Por isso, não admitem que outros actuem em nome do Senhor: «Mestre, vimos alguém expulsar demónios em teu nome, alguém que não nos segue, e quisemos impedi-lo porque não nos segue» (v. 38). Para pertencer a Cristo, para seguir a Cristo, e agir em seu nome, é preciso estar com Ele.

Por isso julgam-se no direito de impedir que outros, que não fazem parte do grupo, usem o nome e os poderes de Jesus em vantagem própria. Mas não é isso que Jesus pensa: «Não o impeçais, porque não há ninguém que faça um milagre em meu nome e vá logo dizer mal de mim» (v. 39). Mais tarde pode voltar atrás e dizer mal do Senhor. Mas, no momento em que actua em Seu nome, está no bom caminho, e Deus alegra-se com isso.

Os Apóstolos pertencem a Jesus. Mas não têm monopólio sobre Ele, nem sobre a sua graça. Em vez de se irritarem por outros fazerem o bem em nome de Cristo, devem alegrar-se por Deus se dignar agir por meio dessas pessoas e em lugares que não pertencem ao rebanho do Senhor. É uma tentação em que também nós, os católicos, que sabemos estar na verdade, podemos cair.

Por vezes, temos dificuldade em admitir que Deus possa fazer o bem por meio de pessoas que não pertencem a Igreja e que até nem querem muito com ela. Mas Deus é livre de actuar onde, como e com quem quiser. Mais do que fechar-nos em ciúmes ou ressentimentos, há que abrir-nos à solidariedade: «Quem não é contra nós é por nós» (v. 40).

Havemos de ter por amigos todos os que fazem o bem, ainda que em outras circunstâncias venham a falar mal de nós. Deus derrama a sua graça sobre bons e sobre maus, e cada vez que isso acontece, pode estar a abrir-se um caminho para Cristo. Alegremo-nos com o bem, com todo o bem, venha donde vier, porque, qualquer passo no bem, aproxima de Deus. Peçamos ao Senhor largueza de vistas e... de coração!

Fonte: adaptação local de um texto de F. Fonseca em “dehonianos.org/portal/liturgia”

   

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